Este será um espaço de reflexão e de partilha sobre assuntos relacionados com os temas da Segurança Interna, da Defesa Nacional e afins...
publicado por Vera Lourenço de Sousa | Quinta-feira, 17 Novembro , 2011, 08:12

O depoimento de uma testemunha ocular é uma prova demasiado importante. Ainda assim é fundamental ter a noção de que uma testemunha ocular não regista na sua memória o crime que visualiza da mesma forma que um gravador de vídeo guarda as imagens que capta (Yarmey, 2006).

 

Qualquer percepção é uma análise parcial da situação que acentua alguns aspectos em detrimento de outros (Altavilla, 1982). Significa isto que uma testemunha ao visualizar o cometimento de um crime, não o vai perceber, tal e qual, ele ocorreu, fixando intensamente alguns pormenores em detrimento de outros. Várias experiências têm sido realizadas e têm demonstrado que uma grande percentagem de pessoas comete erros na descrição do crime que percepcionou, vejamos:

 

(1) O professor Listz (citado por Altavilla, 1982), sem advertir ninguém simulou na sua sala de aulas um homicídio com arma branca entre dois estudantes e logo de seguida reuniu os restantes alunos, que foram testemunhas oculares do facto, para deporem como se estivessem em tribunal. De entre os 60 espectadores, com idade semelhante e elevada cultura, apenas 10 narraram com exactidão o crime e todos os outros cometeram erros mais ou menos graves e decisivos quanto aos pormenores.

 

(2) Webwr (citado por Altavilla, 1982), realizou uma experiência aos membros de uma sociedade de psicólogos a quem pediu para elaborarem um relatório escrito de um crime simulado, praticado na sua presença. Os resultados demonstraram que mais de metade das pessoas deram informações erradas e muitas chegaram a dar pormenores imaginários, só estando de acordo quanto à linha geral. São vários os factores que contribuem para o facto das testemunhas oculares cometerem erros na descrição dos crimes que visualizaram, nomeadamente:

 

- cada indivíduo, por serem diferentes os seus aparelhos sensoriais, percepciona a realidade de maneira diferente;

- a maneira como a imagem foi fixada e a frequência com que é lembrada (Altavilla, 1982);

- a iluminação do local;

duração do acontecimento (quanto maior a duração maior probabilidade existe em prestar atenção a determinados pormenores);

- idade, estado físico e emocional da testemunha (influenciam a precisão da memória); declínio do traço mnésico;

- tipo e significado da informação;

- alterações mnésicas provocadas pela aquisição de novas informações sobre o crime e sobre o suspeito (por conversas com outras testemunhas, meios de comunicação social e inclusive através de questões sugestivas colocadas pela polícia;

- testemunhas motivadas para esquecer determinados acontecimentos (Yarmey, 2006).;

- entre outros.

 

Alguns estudos vêm mesmo comprovar que quando existe, por exemplo, a presença de uma arma, dá-se o efeito focalização da arma. A atenção da testemunha/vítima centra-se na arma desviando-se da face do agressor dando-se um decréscimo na qualidade da descrição do agressor e na capacidade da testemunha o reconhecer mais tarde.

 

Altavilla, Enriço, Psicologia Judiciária II – Personagens do processo penal, Coimbra, 1982

Yarmey, A. Daniel, “Depoimentos de testemunhas oculares e auriculares”, in: Psicologia Forense, Coimbra: Almedina, 2006, 227-258

 

mais sobre mim
pesquisar neste blog
 
links
Direitos de Autor
Licença Creative Commons
Esta obra foi licenciada com uma Licença Creative Commons - Atribuição 3.0 Unported.
Novembro 2011
D
S
T
Q
Q
S
S

1
2
3
4
5

6
7
8
9
12

19

20
23
26

27
28
29


badge
blogs SAPO