Este será um espaço de reflexão e de partilha sobre assuntos relacionados com os temas da Segurança Interna, da Defesa Nacional e afins...
publicado por Vera Lourenço de Sousa | Segunda-feira, 04 Março , 2013, 13:29

 

Cortar com estratégia - Sem Washington, a Europa da Defesa é dificilmente defensável

"Não é apenas em Portugal que o debate sobre o futuro das forças armadas está na ordem do dia. As reduções de efetivos e as reestruturações têm vindo a ocorrer em vários Estados da União Europeia. Ouvi, recentemente, um oficial superior alemão dizer que estava cansado de um processo tão longo de cortes, há anos em curso no seu país. Acrescentava que, se é para mudar, o conselho que daria aos políticos é que o decidam de vez, com clareza, evitando, assim, um período prolongado de instabilidade e incerteza.

 

A razão imediata para tanta mudança tem que ver com as finanças públicas, como é frequentemente dito. Esta é uma boa escusa, com resultados palpáveis, fácil de entender e de fazer aceitar pelos cidadãos. Mas é apenas um aspeto do problema. No fundo, o que se passa é que o entendimento do conceito de segurança nacional, de que a defesa é uma componente, mudou de modo significativo, nos últimos anos. Daqui, que seja considerado necessário redefinir o papel das instituições militares. O edifício securitário requer, agora, uma configuração diferente.

 

À partida, a questão que se coloca é a relativa às ameaças. Quais são as grandes ameaças que poderão pôr em causa a segurança nacional e os interesses estratégicos de cada Estado e do conjunto europeu? Há um certo consenso sobre a resposta. Primeiro, a linha de fronteira entre os perigos de origem interna e externa é hoje mais ténue. O terrorismo tanto pode advir de Birmingham como ser importado do Paquistão. Segundo, os desastres naturais podem ter um impacto catastrófico e devem, por isso, fazer parte do conceito. Terceiro, as ameaças mais significativas têm uma natureza híbrida - com origem noutros Estados ou ser obra de grupos clandestinos. Estes grupos poderão ter a sua própria agenda ou ser apenas uma cobertura para ações hostis de determinados países. E, por fim, está-se de acordo sobre os domínios principais de insegurança: a possibilidade de ataque às fontes energéticas ou às vias de encaminhamento do petróleo e do gás, incluindo a pirataria; a criminalidade e a espionagem cibernéticas; o terrorismo; o crime organizado; a produção e a disseminação de meios de destruição maciça, bem como o tráfego de drogas, de armas e de seres humanos.

 

Na verdade, algumas das ameaças identificadas têm muito que ver com o trabalho das polícias. O que significa que a tendência é para um novo equilíbrio entre as forças de defesa e os serviços de polícia e de inteligência. Tudo isto tem de ser bem pensado, de modo que as missões de cada instituição sejam definidas com nitidez e para que, ao mesmo tempo, haja uma maior complementaridade de esforços. O exemplo do Reino Unido, que vai no sentido de uma colaboração funcional mais estreita entre as diferentes instituições de defesa e segurança, sob a coordenação direta do primeiro-ministro, merece atenção.

 

Uma integração mais eficaz ao nível nacional deve ser acompanhada por uma melhoria da interação ao nível dos aliados. No que respeita às forças armadas, o investimento deve ser feito no quadro da NATO e não no da UE. As experiências recentes na Líbia e no Mali mostraram que, sem o apoio de inteligência, de definição dos alvos e de logística dos Estados Unidos, enquanto parceiro na NATO, estas operações não teriam tido os mesmos resultados. Convém ser claro: sem Washington, a Europa da Defesa é dificilmente defensável. Não é uma questão de cortes. Falta, isso sim, uma estratégia que tenha em conta os novos desafios, os meios prioritários e a relevância da cooperação entre os Estados."


Revista Visão, 28 de Fevereiro 2013
 


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