Este será um espaço de reflexão e de partilha sobre assuntos relacionados com os temas da Segurança Interna, da Defesa Nacional e afins...
publicado por Vera Lourenço de Sousa | Sexta-feira, 19 Abril , 2013, 08:28

Stress nas forças policiais

 

Na sociedade actual o stress transformou-se num problema de saúde pelas consequências físicas e psicológicas que tem no indivíduo. Falamos de stress quando perante uma situação importante à qual não podemos escapar, verificamos que os nossos recursos são inferiores ás exigências, sendo por isso necessário fazer um esforço suplementar para nos adaptarmos a essa situação.

 

Inúmeros estudos feitos sobre o stress no trabalho revelam que a actividade policial é uma das profissões mais stressantes. Um estudo de Johnson comparou profissões em 1988, 1997 e 2005, surgindo sempre a Polícia como a segunda actividade mais stressante, enquanto outras profissões iam variando neste ranking. Existem também estudos que sugerem que o stress mata mais polícias do que o confronto com o crime.

 

Os estudos sobre stress nas forças policiais habitualmente destacam dois tipos de fontes de stress:

     - organizacionais: falta de recursos materiais, problemas com supervisores ou colegas, pouco reconhecimento do esforço, queixas das políticas institucionais, excesso de burocracia, relação complicada com o Sistema de Justiça e as decisões dos Tribunais (sobretudo nos delinquentes reincidentes), imagem veiculada pela comunicação social e acusações de brutalidade, uso excessivo da força ou racismo.

     - operacionais: conflito na tarefa (por exemplo, deter um suspeito mas atender aos direitos deste), gestão dos turnos e dos imprevistos, exposição ao perigo, dificuldade de conciliar trabalho e família, dificuldade em resolver problemas na comunidade, testemunhar o sofrimento humano, vivenciar incidentes críticos que podem originar traumas, acumular do stress e suas consequências na saúde física e psicológica, isolamento e não partilha de sentimentos com receio de ser mal visto pelos colegas, sobretudo quando estes sentimentos podem demonstrar vulnerabilidade e sofrimento do polícia, colocando em causa a imagem de dureza e invencibilidade que a sociedade tem.

 

Quando falamos em stress relacionado com a actividade policial devemos distinguir dois tipos de stress: stress ocupacional crónico e stress pós-traumático. O stress ocupacional crónico resulta da exposição a estímulos stressores constantes na actividade profissional, e que, ao longo do tempo, vão afectando de forma gradual a saúde física e psicológica do polícia, levando à “erosão da alma do profissional” e á situação limite da síndrome de burnout. O burnout é então uma reação do polícia para lidar com as situações stressantes constantes, tendo sido inicialmente estudado na década de 70 por Freudenberger e por Maslach nas profissões de ajuda como médicos, enfermeiros ou terapeutas. Posteriormente, verificou-se que afectava também profissões que implicam interação com pessoas em sofrimento, como é o caso dos polícias. Caracteriza-se por ter três dimensões:

     - exaustão emocional - esgotamento emocional/psicológico e físico, sensação de não ter mais nada para oferecer aos outros que exigem algo, sendo a primeira reacção ao stress crónico. È um esvaziar dos recursos do polícia.

     - despersonalização, cinismo ou desumanização - atitude fria, distante, negativa einsensível para com o trabalho e para com os outros, havendo uma minimização do envolvimento na profissão e um abandono dos ideais com que entrou para a profissão. Surge pela sobrecarga de trabalho e traduz um conflito social entre os ideais do polícia e o que efectivamente consegue fazer no seu dia-a-dia. Como já se sente esgotado, apenas possui recursos para adoptar uma atitude fria e desligada para com o trabalho e os outros.

     - falta de realização pessoal ou profissional - sentimento de ineficácia profissional, em que cada nova tarefa é sentida como demasiado exigente. Há uma diminuição das expectativas pessoais, uma auto-avaliação pessoal negativa, sensação de fracasso e de baixa auto-estima, e uma sensação de falta de recursos para desempenhar o trabalho com qualidade.

 

O burnout tem um desenvolvimento gradual e, quer o stress crónico, quer o burnout, com o tempo, podem levar o polícia a abandonar a profissão, refugiar-se no consumo de substâncias para esquecer a sua frustração, tornar-se agressivo ou ansioso, isolar-se porque sente que ninguém o compreende, deprimir, ou até suicidar-se. Tem também um efeito contagioso num grupo, pois pela tendência ao elemento em sofrimento psicológico se isolar, vai quebrando a coesão do grupo e vai fazendo o grupo tomar consciência que o burnout pode acontecer também aos outros. Neste sentido, a prevenção do stress tentando evitar que o stress crónico se transforme no extremo patológico do burnout deve ser um prioridade.

 

O stress pós traumático ou PTSD é  outra forma de stress muito estudada nos polícias e resulta do vivenciar incidentes críticos ou situações de ameaça grave para a vida ou segurança da pessoa e que ultrapassam em intensidade as experiências comuns. Caracteriza-se também por três dimensões:

     - sintomas de evitamento - evitar pensar no acontecimento, sintomas de depressão e de anestesia emocional.

     - activação física e psicológica - ritmo cardíaco elevado, suores, ansiedade, reacções exageradas.

     - intrusão - pensamentos indesejados quando se menos espera, pesadelos.

Falamos de stress pós-traumático quando mais de um mês após um incidente crítico estas três dimensões ainda se manifestam. Note-se que após um incidente crítico é natural que surjam estas reacções, mas habitualmente vão desaparecendo ao longo de um mês.

 

Durante a actividade policial os elementos das forças de segurança estão expostos ao risco e a múltiplos imprevistos e perigos, sendo por isso fundamental a sua preparação para lidar com o stress. Alguns estudos demonstraram que numa situação stressante os polícias avaliam mais facilmente os estímulos como ameaçadores, reagindo mais frequentemente e mais intensamente de forma agressiva. Há também experiências feitas que verificaram que num situação de ansiedade os polícias disparavam mais frequentemente, mais depressa e com menos pontaria (por exemplo, estudo de Nieuwenhuys e colegas publicado em 2011).

 

Para evitar os efeitos negativos do stress, alguns autores sugerem que os turnos tenham um máximo de 12 horas, que haja uma rotação de tarefas menos/mais stressantes e de tarefas no terreno/esquadra, que haja alguma regularidade nos horários das refeições e sejam feitos pequenos intervalos, que se pratique exercício físico, que se estimule um suporte familiar positivo e haja alguma actividade que interesse ou dê prazer/motive fora da Polícia, e que haja um espaço que permita em grupo falar sobre stress e sobre emoções sentidas, sobretudo após um incidentes crítico. Algumas forças policiais já possuem programas de gestão do stress que permitem prevenir o burnout e o stress pós-traumático, fazendo sessões informativas de sintomas de stress, treinos de relaxamento, programas de exercício físico colectivo, auto-avaliação regular do stress e treino de comunicação e partilha de sentimentos. Por exemplo, o modelo CISM ou Critical Incident Stress Management permite o apoio de pares/colegas e tem demonstrado ajudar a prevenir o stress, sobretudo relacionado com incidentes críticos (como o demonstrou um estudo de Abigail e colegas publicado em 2005). Em 2008 Voloder verificou que um programa informativo de sintomas de stress e treino de comunicação e partilha de emoções reduziu a ansiedade e efeitos negativos do stress em polícias.

 

Apesar de as forças policiais portuguesas estarem já atentas aos efeitos do stress provocado pela actividade policial, nem sempre é possível aplicar as sugestões recomendadas pelos especialistas, e infelizmente a afirmação de Turvey em 1995, ainda é verificada actualmente: ”Os polícias podem ficar deprimidos, como o resto da humanidade, podem ficar desesperados, como o resto da humanidade. Mas quando um polícia fica deprimido e desesperado, não deixa de ser um polícia. Ao polícia é esperado, pela sua cultura, que suporte”. É por isso importante insistir na prevenção do stress, pois as suas consequências na actividade policial afectam o polícia, mas também a qualidade dos serviços que presta ao cidadão e para além do sofrimento individual do polícia, as consequências do stress que este experiencia alargam-se á sua família e á sociedade.

 

 

Cristina Queirós – Licenciada e Doutorada em Psicologia, professora na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto e co-directora do Laboratório de Reabilitação Psicossocial (FPCEUP/ESTSPIPP). Efectua estudos sobre stress e burnout em diferentes profissões (profissionais de saúde, professores e polícias) e orientou já várias dissertações de Mestrado ou Doutoramento sobre as forças policiais, a maioria delas realizadas por elementos da PSP, GNR ou PJ. Tem publicações nacionais e internacionais sobre o tema do stress na Polícia, como por exemplo:

- Queirós, C. & Marques, A.J. (2012). Burnout in male Portuguese samples: a comparative study between nurses, teachers and police officers. In S.P. Gonçalves & J. Neves (Eds.). Ocupational Health Psychology: From burnout to well-being (Cap. 1, pp.1-33).Rosemead,CA,USA: Scientific & Academic Publishing.

- Queirós, C. (2002). Introdução. In CCFFSS do Ministério da Administração Interna (Eds.), Forças de Segurança e Investigação Cientifica: um espaço de reflexão (pp. 9-13). Lisboa: Ministério da Administração Interna.

- Silva, A.L. & Queirós, C. (2012). Sensation Seeking and Burnout in Police Officers. In S.P. Gonçalves & J. Neves (Eds.). Ocupational Health Psychology: From burnout to well-being (Cap. 4, pp.93-125).Rosemead,CA,USA: Scientific & Academic Publishing.

 

 

Muito obrigada Cristina Queirós por ter aceite este convite do SIDN. Foi uma honra enorme. Continuação de um bom trabalho em prol da “saúde” dos polícias, para que os mesmos tenham as condições necessárias para prestar um serviço de qualidade aos cidadãos! Um bem haja!

 

 


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