Este será um espaço de reflexão e de partilha sobre assuntos relacionados com os temas da Segurança Interna, da Defesa Nacional e afins...
publicado por Vera Lourenço de Sousa | Terça-feira, 22 Novembro , 2011, 13:02

Entre os anos de 2002 e 2005 efectuámos um estudo sobre a integração de Agentes na Polícia de Segurança Pública. Procurámos averiguar qual o comportamento de procura da informação que adopta o recém-chegado da P.S.P. e sua influência na adaptação à organização e à função que vai desempenhar.

 

A integração de novos Agentes na polícia tem sido desde sempre um tema que nos interessa e que nos é particularmente querido desde logo porque a literatura e a realidade que conhecemos apontam para que as organizações policiais apresentem problemas ao nível  dos mecanismos de integração adequados aos novos polícias, mecanismos estes que consideramos basilares.

 

A ausência de programas formais de integração e socialização que ajudem o novo membro a ajustar-se à organização e à função e ainda, por vezes, a falta de enquadramento, criam neles um sentimento de insegurança, de stress e de quase abandono. Estas circunstâncias dão azo a afirmações do tipo “ somos literalmente lançados às feras”....

 

Deste trabalho resultaram as seguintes conclusões:

 

A procura de informação é uma das formas que o recém-chegado tem de ser proactivo, ou seja, de poder interferir na sua própria socialização.

 

O Agente recém-formado da Polícia de Segurança Pública demonstrou ter um papel activo na procura de informação procurando informação em média uma vez por semana. Ainda assim, nos primeiros seis meses da sua actividade profissional, procurou com maior frequência informação sobre as expectativas de papel, seguindo-se a informação técnica e por último a informação de desempenho.

 

Na procura dos diversos tipos de informação, os Agentes demonstraram recorrer com maior frequência à observação e consulta de fontes impessoais do que à inquirição. A observação é a táctica de procura de informação por excelência, sendo que, foi na procura de informação técnica que os inquiridos mais recorreram a esta táctica. A inquirição atinge a maior média na procura de informação sobre as expectativas de papel e a menor na procura de informação de desempenho.

 

No que diz respeito às fontes de procura de informação verificou-se que são os colegas mais velhos e experientes os preferidos e mais utilizados.

 

O Comandante da Esquadra é a fonte menos procurada pelos Agentes da PSP, quer no que diz respeito à informação sobre as expectativas de papel, informação técnica e informação sobre o desempenho. Na verdade, os colegas mais velhos e experientes desempenharam um papel relevante na passagem da informação aos novos Agentes com possíveis implicações para o funcionamento da instituição.

 

No que diz respeito à influência do comportamento de procura de informação na integração dos novos Agentes verificou-se que a procura de informação técnica e a procura de informação normativa estão positivamente correlacionadas com a integração social no trabalho.

 

Já no que se refere à satisfação foi possível determinar que quanto mais o Agente recebe informação sobre as expectativas de papel maior será a sua satisfação com o emprego, o ambiente de trabalho e serviço prestado e com a chefia.

 

Relativamente à relação entre a “procura” e a “oferta” de informação verificou-se que estão positivamente relacionadas.

 

Assim, do ponto de vista teórico, o presente trabalho permitiu-nos acrescentar que a informação sobre as expectativas de papel foi a mais procurada pelos Agentes recém-formados da PSP, que a observação foi a táctica mais utilizada na procura de informação técnica, informação sobre as expectativas de trabalho e informação de desempenho e que os colegas mais experientes foram a fonte preferencial na procura de informação com destaque negativo para a baixa frequência na procura de informação junto do comandante da esquadra.

 

Do ponto de vista prático é importante que:

 

(1) os conteúdos de formação sejam ajustados à vontade explícita demonstrada pelos novos Agentes da PSP em querer saber mais sobre o papel que irão desempenhar no futuro, nomeadamente, comportamentos e atitudes esperadas (informação sobre as expectativas de papel);

(2) exista uma maior iniciativa por parte das diversas fontes organizacionais na “oferta” dos diversos tipos de informação aos “novos polícias”, na medida em estes recebem menos informação do que aquela que consideram necessária;

(3) exista um incentivo claro por parte da hierarquia e dos colegas mais experientes para a colocação de dúvidas e esclarecimento dos mais novos evitando a todo o custo a recriminação “pelo não saber”, fazendo prevalecer o reforço positivo (reacção positiva às atitudes dos novos membros) em detrimento do reforço negativo (punição e crítica aos comportamentos de procura de informação por parte dos novos membros).

 

Testemunhámos a importância que os colegas mais velhos e experientes têm junto dos mais novos, ainda assim, é necessário relembrar que a socialização serial poderá acarretar problemas graves de estagnação e contaminação. São os colegas mais velhos que acompanham de perto o trabalho dos “novos” policias e é com eles que os novos Agentes passam a maior parte do seu tempo. Assim, é muito natural que se tornem uma fonte de informação privilegiada e que tenham um papel de extrema importância na integração dos novos Agentes.

 

Nesta integração não está prevista a figura do tutor ou responsável escolhido formalmente pela PSP, pelo que esta função será exercida informalmente pelos colegas mais velhos e experientes. Segundo Maanen (1973) este é o sistema que permite a continuidade do “keep a low profile”. “Novos policias” com características muito semelhantes aos “velhos polícias”. Este sistema contribuirá segundo este autor de forma muito significativa para a estabilidade dos padrões do comportamento policial prejudicando os conteúdos transmitidos na escola de polícia.

 

Numa perspectiva de socialização tendo em atenção o desenvolvimento da instituição, a figura do tutor poderia ter um papel relevante. Os “novos polícias” receberiam instruções formais de colegas especialmente escolhidos pela PSP. Este processo de socialização assenta em três importantes premissas. Em primeiro lugar, as técnicas policiais não podem ser aprendidas única e exclusivamente numa sala de aulas. Os “novos polícias” têm de aprender a lidar com algumas situações nas ruas, o seu local de trabalho por excelência, uma vez que o ambiente formal de uma sala de aulas é naturalmente limitado na aprendizagem das competências de um cenário real. Em segundo lugar, através de uma cuidada selecção e formação, os tutores estariam aptos a estimular nos “novos polícias” o desenvolvimento do conhecimento e das competências necessárias a um bom desempenho profissional e, finalmente, importa lembrar que os novos agentes aprendem muitos comportamentos através da observação de modelos e da imitação desses modelos.

 

Maanen (1979) defende que existe uma tendência para a homogeneidade dos comportamentos policiais e tal facto deve-se, em grande parte, à influência que os colegas mais velhos têm sobre os mais novos. Ora, através de uma cuidada selecção e formação dos tutores, a cultura organizacional, os valores, princípios e acima de tudo o modelo de polícia esperado poderiam ser melhor apreendidos pelos novos Agentes da polícia por forma a que as suas atitudes e comportamentos sejam o espelho dos valores da instituição.

 

 

O relatório de uma Independent Commission on the Los Angeles Police Department (Christopher Commission) vem reportar esta teoria. O tutor tem uma enorme influência nas atitudes, competências e hábitos de trabalho dos novos agentes. Neste relatório podemos ler:

“the most influential and effective training received by a probationer comes from the example set by his or her FTO[1]. If a probationer is likely to acquire the same skills. Conversely, if a probationer works with an FTO whose usual conduct is to be rude or arrogant, the probationer may be taught by examples to accept those attitudes as appropriate” (Independent Commission on the Los Angeles Police Department, 1991, p.130)

 

Ainda assim, é importante realçar que antes da implementação de um programa de tutores é fundamental que a instituição policial determine quais as características que um polícia exemplar deve ter, ou qual o modelo de polícia que a instituição valoriza. Com base nesse modelo, os departamentos policiais poderão estabelecer as competências e atitudes que devem ser característica dos tutores. A instituição teria assim um papel activo na integração e socialização dos “novos reforços”.

 

 



[1]FTO é o processo pelo qual os “novos polícias” recebem instruções formais de colegas especialmente escolhidos pela instituição”

 

 

 Van Maanen, J. (1973). Working the street: a developmental view of police behaviour. In Herbert Jacobs (Ed), Reality and reform: the criminal justice system.Beverly hills,California: Sage publishing co.

Van Maanen, J. & Schein, E. H.  (1979). Toward a theory of organizational socialization. In B. M. Staw (Ed.), Research in Organizational Behavior, Grenwich C.T.: JAI Press Inc.

 

 


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